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The Plane Experience: comissário por uma noite

The Plane Experience
Um ex-tripulante da Avianca Brasil volta a ter uma noite de comissário num ex-avião da Avianca Brasil. Um review diferente do The Plane Experience!

Enquanto os outros comissários se preparavam para fazer a demonstração de segurança, eu estava de pé, na galley, olhando para o corredor. De repente, o chão começou a vibrar, enquanto escutava o ruído dos motores se ligando. Como fiz 366 vezes, de acordo com o MyFlightradar24 (inclusive, dá uma olhadinha nesse review do site), flexionei as pernas levemente, para não perder o equilíbrio quando o avião começasse a se mover. Mas, ele não ia se mover. Assim como eu, aquele Fokker 100, ou melhor, MK-28, não voa desde a época da Avianca Brasil. Mas, a simulação do The Plane Experience é tão real, que me fez voltar aos tempos que o MK-28* e eu ainda voávamos pela Avianca.

Observação: nesse texto, vou chamar o Fokker 100 de MK-28. Coisa de ex-Avianca.

Aberto em 2021, o The Plane Experience nasceu da mente do pastor Ricardo Espíndola, bem como de sua sócia Tatiana Osler. Sobrinho de comissários da Pan Am, Ricardo disse que era fascinado pela lendária companhia desde criança. Antes de adquirir o MK-28, ele e Tatiana já haviam construído um mockup de outro avião da Pan Am para uma feira de países que acontecia em Brasília. Nesse mockup, usaram madeira para o piso e paredes e os assentos dos Boeing 767 da Transbrasil que estão até hoje parados no Aeroporto de Brasília. O mockup ficou perfeito, mas era temporário. “A gente chorou quando precisou desmontar”, relembra Tatiana. O mockup ficou apenas nas memórias. Todavia, o MK-28 está aí, encantando visitantes todos os dias.

Você já deve ter lido na internet diversos reviews de clientes que foram jantar. Hoje, quero fazer um review diferente. Vou falar como é a experiência de “voar” no The Plane Experience, do ponto de vista de um antigo comissário de voo.

Aliás, falamos do The Plane Experience nesse vídeo abaixo! Confira aí!

YouTube player

O avião por dentro, check in e embarque

Faltando alguns minutos para o restaurante abrir, Tatiana me encontrou no estacionamento da Igreja Batista Central de Brasília, trazendo o uniforme que eu iria vestir naquela noite. Fomos a um prédio, que serve de vestiário e dispensa do The Plane Experience, e fui apresentado à equipe. Então, devidamente apresentado, troquei de roupa e segui o pessoal até a sala de embarque do restaurante.

Explicando um pouco de como funciona o The Plane Experience. A ideia do Ricardo e da Tatiana é simular um voo real da Pan Am, do momento da compra das passagens ao desembarque. Então, você compra as passagens no site do restaurante, agendando o dia do “voo”. No The Plane Experience, há duas classes: Executiva e Primeira. Assim como em aviões reais, a Primeira Classe fica na porção dianteira do MK-28. São 20 poltronas, na configuração 2-2. Uma curiosidade, as poltronas da Primeira Classe foram tiradas daqueles Boeing 767 que estão no Aeroporto de Brasília até hoje. São as mesmas que ficaram no mockup que os sócios construíram para a feira, anos atrás.

Já a classe econômica mantém 25 poltronas da época que o MK-28 voou na Avianca Brasil. A configuração é 2-3, com quase tudo igual aos tempos que o avião voava. Inclusive, alguns dos trolleys utilizados no restaurante são os trolleys da Avianca, com as mesmas cores, a logo da companhia bem como o característico AV-BR em vermelho e verde na parte superior. Iguaizinhos aos trolleys que usei nos meus tempos de comissário. Então, depois de um briefing rápido, ficou definido que eu atuaria na Executiva. Assim, apesar de eu ter entrado na Avianca depois que tinham aposentado o MK-28, eu estaria numa cabine igual à da antiga “firma”.

Depois que fizemos um briefing bem rápido, voltamos a descer do avião. O pastor nos chamou para uma rápida oração e chegou a hora, então começou o embarque.

Gostinho de voo real

Fornos esquentam as quentinhas que vamos servir aos clientes. O cheiro da comida me transportou ainda mais para uma galley real

Voltei para a galley da classe executiva. Enquanto a comissária Dhimylee ajudava os passageiros a encontrar seus assentos, o comissário Daniel ligava os fornos para esquentar a comida. Assim, lembrei novamente dos meus tempos de Avianca, até com lanchinho quente a bordo. Fiz o que eu faria em um voo real, fiquei parado, com um sorriso no rosto e dizendo “boa noite, bem vindo a bordo” aos passageiros que entravam.

Mais cedo, na visita que fizemos ao restaurante, Ricardo e Tatiana nos explicaram que até a refeição simula um voo real. As comidas são preparadas numa cozinha lá naquele prédio que me troquei e embarcam no avião em quentinhas, igual ao catering faz nos voos reais. Então, enquanto o embarque acontece, o comissário da galley precisa deixar tudo organizado, para a refeição sair no tempo do voo. E foi exatamente isso que aconteceu naquela noite.

Terminou o embarque, todos acomodados. Chegou a hora que eu mais gostava no trabalho real de comissário, a apresentação de segurança. Era raro nos voos da Avianca, afinal, passava um vídeo, mas quando precisava fazer a demonstração real, eu adorava! No entanto, como, ao contrário da Avianca, eu não tinha sabia como seria a ordem da apresentação ali, fiquei quieto, só observando os comissários fazerem a demonstração de segurança.

Então, o som dos motores tomou conta da cabine, enquanto o chão começou a vibrar. Meu subconsciente dizia que, em breve, começaria o pushback. Dei uma leve flexionada nos joelhos para não perder o equilíbrio, esperando o movimento. Mas ele não veio. Me lembrei que, apesar de estar em um MK-28 real, ele não voaria. O meu cérebro lutava para processar aquela informação. Tudo, mas tudo ali me dizia que eu estava taxiando em um aeroporto real. Os sons, a vibração do chão, bem como a iluminação da cabine, até o cheiro da comida nos fornos eram iguais aos de uma galley real. Mas eu estava em um restaurante. Aliás, em uma experiência! The Plane Experience!

Entradas e bebidas

De entrada, Mezzes árabes, houmus e baba ghanouj

Obviamente, o restaurante não consegue simular a aceleração de uma decolagem real. Apesar de mecanismos fazerem o chão da cabine vibrar como num voo real, o avião fica parado, no mesmo lugar. Ainda assim, o vídeo que aparece nas telinhas da cabine, com uma filmagem da cabine de um avião taxiando e decolando te levam para uma decolagem quase real. O avião “sobe”, “passa dos 10 mil pés”, começa o serviço.

Voltando aos tempos de comissário

“Lucas, você vai servir as bebidas”, disse Tatiana, enquanto colocava água quente nos pequenos recipientes com toalhas para os clientes. Depois de entregar as toalhas, Dhimylee voltou com a bandeja vazia. E chegou a minha hora de voltar a um voo da Avianca, ali entre 2018 e 2019. Na executiva, o The Plane Experience serve duas opções de vinhos, além de Coca-Cola normal e light, guaraná, suco de uva e água. O serviço é a mesma dinâmica do voo real, inclusive com a gente precisando voltar à galley para buscar bebidas que acabam. Além disso, voltei a me sentir num voo real precisando ir até a galley para os passageiros poderem passar pelo corredor e ir ao banheiro. Acredite, até disso eu sinto falta!

Terminadas as bebidas, então vieram as entradas. Como o voo de julho era para Dubai, a temática do restaurante era culinária árabe. Na entrada, mazzes árabes (pães árabes), acompanhandos de houmus (um patê de grão de bico), junto de baba ganoush (um patê feito de berinjela, limão e tahine). Servidos na bandeja, de três em três. Enquanto preparava as bandejas, Tatiana me explicava que já tinham tentado servir com o trolley, assim como num voo real, mas não deu certo. O serviço da Executiva deveria acontecer junto da Primeira Classe. Servindo com trolley, a executiva acabava bem antes, visto que, na Primeira Classe, é bem mais complexo.

Alimentação especial para os clientes.

Depois das entradas, voltei a passar o trolley com bebidas. Vinho, água, refrigerante. Com gelo, sem gelo. Sorriso no rosto, realização pessoal. Que saudade que eu sentia de servir às pessoas em um voo. Um voo praticamente real, com a mesma vibração do chão e ruídos de um avião real. Até mesmo eu não conseguindo escutar os pedidos dos passageiros que falavam baixo. Eventualmente, cheguei a olhar pelas janelas, para ver o chão lá embaixo, 10 quilômetros abaixo do avião. Mas as persianas ficam fechadas o voo inteiro, para as pessoas não verem o estacionamento dois metros abaixo e quebrarem a ilusão de estarem num voo real.

Como num voo real, há uma lista com quem solicitou refeição especial

Voltei para a galley, Tatiana preparava a salada. Cuscuz marroquino bem servido de camarões. Bem servido, MESMO. Por falar em camarão, algo que me chamou atenção na cabine é uma lista com nome dos passageiros, assentos e eventuais restrições de alimentação. Assim como num voo real, na hora do check in, os passageiros podiam marcar se precisam de um alimento diferente. Por exemplo, diabéticos, intolerantes a lactose ou quem tem alergia a soja, glúten ou camarão pode marcar na hora do check in. E isso fica anotado para o pessoal do The Plane Experience servir a refeição certa aos clientes.

Na fase da salada ou do prato principal, que vou entrar em detalhes daqui a pouco, tem bandejinhas separadas para esses clientes, bem como para as crianças. Elas têm um adesivinho de cor diferente, indicando que tipo de alimento especial é. De novo, até nos mínimos detalhes, é a experiência mais próxima de um voo real que tive, desde meu último voo como comissário lá em 2019.

Mais uma vez, tudo ali parece um voo real, do ponto de vista dos comissários. Porque, enquanto serviam as saladas, a gente preparava o trolley para mais uma passagem de bebidas. Acabou o suco? A gente repõe. Já separa a próxima garrafa de Coca-Cola, por favor. O vinho está no final, mas quase ninguém pediu vinho branco nessa passagem, acho que dá para mais esse serviço. De todo modo, já deixa outra garrafa separada. E assim vamos nos organizando para mais uma passagem de bebidas.

Atenção aos detalhes

A atenção aos detalhes é a estrela do restaurante. Repare na logo do restaurante marcada no pão e na tampa da quentinha

E chegou a hora da estrela da noite, o prato principal. Durante o mês de julho, era arroz com lentilhas acompanhado de kafta de carne com molho sour cream. Além disso, assim como em voos reais, a refeição ainda traz um pãozinho da casa com manteiga. E no prato principal que vem mais alguns detalhes que encantam os clientes e nós, comissários. Os talheres, pratos, taças bem como a tampa da quentinha traz detalhes de companhias aéreas reais. São objetos reais, que voaram pelo Brasil e pelo mundo não só na Avianca, mas também na Varig, Vasp, Transbrasil, LATAM, entre outras empresas.

Conversei com amigos que jantaram no The Plane Experience e a opinião de todos é a mesma: seja como tripulante ou como cliente, você se sente em um voo real. E esses detalhes fazem toda a diferença. Da vibração e ruídos aos talheres, tudo ali te diz que você está voando para Dubai, não em um estacionamento na Asa Sul de Brasília.

Arroz com lentilha e Kafta que servimos na Executiva. Muito, mas muito bom!

Turbulência sem spoilers

No meio do serviço de bordo, Tatiana me puxou para um canto e perguntou:

– Lucas, o que você fazia se acontecesse uma turbulência durante o serviço de bordo?

– Uai, travava o trolley, e me sentava no primeiro assento, afivelando o cinto de segurança.

– Exato! Tá chegando na hora da turbulência. Se isso acontecer no meio do serviço, faz isso.

– Ah… tá…

Agora eu fiquei assustado. Não pela turbulência em si, afinal, como diz o Lito, turbulência não derruba avião. Mas já peguei umas turbulências bem desagradáveis para quem estava solto na cabine, sem cinto de segurança. De novo, a imersão era tão grande que eu estava esperando tudo que acontecia num voo normal, inclusive, uma turbulência que derrubasse copos e chacoalhasse tudo. Fiz o serviço o mais rápido que podia e terminei antes de começar a tremer tudo. Já de volta à galley, ouvi o piloto avisar que estávamos entrando em uma zona de turbulência e…

Bem, o que acontece aí, eu não vou contar. Você que visite o The Plane Experience para descobrir!

Aliás, antes de prosseguirmos: Já que estamos falando de Pan Am, fica o convite pra ler esse texto sobre o maravilhoso boardgame baseado na ccompanhia!

Café, sobremesa e fim do voo

O que esses mil folhas com creme de nozes têm de bonitos, eles têm de gostosos. Que saudade!

Passada a turbulência, voltamos ao serviço normal. Agora, ficou a cargo da Dhimylee e do Daniel terminarem o serviço de bordo. Fiquei observando. Depois de recolherem os pratos e talheres da janta, veio a hora do café e da sobremesa. O café é servido no trolley, como num voo real. A grande graça é uma das marcas registradas do The Plane Experience, a xícara de casquinha, com cobertura de chocolate. Quando o café quente cai ali, a casquinha segura bem a bebida, mas o chocolate derrete, deixando tudo mais gostoso.

E aí vem a sobremesa. Em julho, mil-folhas, com recheio de creme de nozes. Como vocês podem ver na foto acima, o que ele tem de bonito, tem de gostoso. O bom de ser comissário ali é poder comer mais de um, depois do pouso.

Servida num pires da VASP, a xícara de casquinha é uma marca do The Plane Experience.

Pois é, como tudo que é bom dura pouco, terminamos os serviços, chegou a hora de preparar a cabine para o pouso. E, mais uma vez, foi igual a um voo real. Pessoal recolheu os últimos copos e talheres, assim como o cardápio e os cartões de segurança. Fizeram um último check, para ver se as mesinhas estavam travadas e poltronas na posição vertical, diminuímos as luzes das cabines e fomos para o pouso.

De novo, não dá para simular a desaceleração e a descida, mas a vibração do chão, os ruídos e luzes são muito iguais à vida real. O avião “parou”, passageiros desembarcaram. Sorrisos, fotos, todos muito satisfeitos. Fim de voo.

Debriefing

Eu, Daniel, Dhimylee e Tatiana, nossa tripulação da Classe Executiva na noite que estive lá

Terminado o desembarque, chegou a hora de relaxar e experimentar as comidas do restaurante, enquanto conversava com o restante da tripulação. Enquanto comia o maravilhoso arroz com kafta, eu pensava no que tinha acabado de viver.

De novo, desde maio de 2019, quando fiz alguns dos últimos voos da Avianca Brasil, eu não voltava a sentir como é ter a melhor profissão do mundo. Os outros ex-comissários que eventualmente lerem esse texto, provavelmente sentem a mesma saudade que sinto de voar. E, aquela noite de sábado no The Plane Experience, matou um pouco da saudade. É sério, a experiência ali não perde em nada real de estar voando.

Além da experiência em si, do voo, eu preciso destacar a simpatia e o acolhimento de todos a bordo. Cheguei no restaurante inseguro. Por mais que tivesse voado, cada companhia aérea tem um procedimento diferente e, para todos os efeitos, ali não é uma companhia, é um restaurante. Estava com medo de fazer alguma besteira e atrapalhar o trabalho do pessoal. Até onde sei, não atrapalhei ninguém. E todos foram muito simpáticos, conversando tirando fotos, trocando experiências e me ensinando o passo a passo ali do restaurante.

E vi a mesma simpatia com os clientes. Todos os tripulantes sempre com sorriso no rosto, tirando dúvidas, ajudando os clientes. Com toda a classe e padrão de qualidade que fez da Pan Am real ser a mais lendária companhia aérea do mundo.

Espero voltar em breve ao The Plane Experience. Da próxima vez, como passageiro, para conhecer o outro lado da experiência do “voo” no restaurante. Mas, se precisarem de um comissário extra ali, podem me chamar. Meu maior sonho é reconquistar as asas, mas, enquanto não volto a voar, o The Plane Experience traz de volta aquele gostinho tão especial de voar. Só fica o meu muito obrigado a toda a tripulação pela noite incrível!

Onde fica? Quais são os horários e dias de funcionamento?

Para o público geral, o The Plane Experience funciona toda sexta-feira e sábado. O check-in abre por volta das 19h e o voo/jantar vai até aproximadamente 22h, 22h30. Como falei, são vagas limitadas, apenas 20 na Primeira Classe e 25 na Executiva e os clientes precisam fazer a reserva com antecedência, no site do restaurante.

Além do atendimento normal, o restaurante ainda abre às quintas-feiras para escolas públicas do Distrito Federal. Assim como os clientes no fim de semana, os alunos também aproveitam o “voo” do restaurante, com serviço de bordo, e todas as experiências que os demais passageiros têm. Como as turmas costumam ser maiores, são voos mais curtos, de apenas 1 hora. Enquanto uma turma está no avião, outra fica na sala de espera, com pipoca e algodão doce a vontade. Vale destacar que o projeto é para escolas públicas e carentes do Distrito Federal. Basta entrar em contato pelo WhatsApp (61) 99226-9789 e agendar o dia.

O The Plane Experience fica no estacionamento da Igreja Batista Central de Brasília, na L2, na Asa Sul.

Recomendo demais a visita! Você vai adorar!

Depois de voar, chegou a hora de voltar a ficar a paisana e voltar para o hotel, com aquele gostinho de ter sido comissário por mais uma noite.

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