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O jornalista é tão vítima do sensacionalismo quanto o leitor

jornalismo e aviação
É comum ouvir críticas que repórteres escrevem besteira sobre aviação. Por que isso acontece? (foto: S.C. Air National Guard/Flickr)

Quem leu esse texto aqui, sabe que fui repórter antes de trabalhar na aviação. Inclusive, trabalhei com divulgação científica, na Revista Ciência Hoje. Tanto na cobertura de ciência quanto na aviação, escuto sempre as mesmas críticas, de que jornalistas são sensacionalistas e não sabem do que estão falando.

Vamos ter uma conversa bem séria sobre jornalismo, desinformação, erro e violação.

Sim, a imprensa espalha desinformação sobre aviação. Isso ajuda a gerar o medo que as pessoas têm de voar. E é notório, existe muito sensacionalismo na mídia. O que muitas pessoas pensam ser a causa do problema é, na verdade, resultado de um modelo de jornalismo construído para não dar certo. Em muitos casos, o repórter é tão vítima da desinformação quanto a população.

Aqui, eu não quero apontar dedos e dizer que eu, você ou alguém está errado. Na aviação, cultivamos a cultura justa, nos preocupando mais com O QUE está errado do que QUEM errou. Nesse texto, eu quero apontar o que está errado na comunicação. E como isso contribui para o medo de voar.

Erros e violações

Lá em 2016, troquei o jornalismo pela aviação. E, no curso inicial da companhia aérea, aprendi a diferença entre erro e violação.

Erro é quando alguém faz o que não deveria, mas sem a intenção. Por exemplo, quando a gente sai e esquece a janela do quarto aberta. Chove e a cama molha. Foi um erro. Ninguém em sã consciência vai sair com a janela do quarto aberta num dia chuvoso.

Violação é quando alguém faz o que não deveria, sabendo que não deveria. O motorista que bebe e depois vai dirigir. Todo o mundo sabe que o código brasileiro de trânsito proíbe pessoas de dirigirem depois de beber. Ainda assim, a pessoa faz isso. Isso não é erro, é violação.

O que isso tem a ver com jornalismo? TUDO.

Violação no jornalismo

jornalismo
Você acha que sensacionalismo é algo de hoje? Desde 1903, sensacionalismo vende! (foto: rauter25/Flickr)

Vou começar falando da violação porque é a parte mais fácil e rápida. Apesar de ser comum, sensacionalismo é uma violação e condenada pelo próprio jornalismo. Na faculdade, a gente aprende que comunicação social é comunicação a favor da sociedade. Nós, jornalistas, prestamos um serviço à sociedade. O serviço de informar, explicar, ensinar. O problema é que, por causa de audiência (e vou falar disso daqui a pouco), os jornais acabam recorrendo ao famoso sensacionalismo.

Por quê? Porque sensacionalismo vende. Ninguém quer ler a notícia do avião da Gol que pousou em Confins, seguindo procedimentos. Isso nem é notícia. As pessoas querem ler a notícia do avião que arremeteu no meio da turbulência, e a atriz começou a chorar, e a “turbina” pegou fogo… nenhum passageiro se feriu na arremetida. Isso é extraordinário, é notícia, gera cliques! É um grande exagero, não aconteceu nada disso, mas a gente clicou no link. Seja pra acreditar, seja pra criticar, demos visibilidade pro jornal. A página ganha visibilidade e ajudamos o medo a se espalhar.

Quando o jornalista deliberadamente exagera, distorce ou até mente para gerar cliques, ele comete uma violação.

Os elos da corrente que levam ao erro

Assim como um acidente aéreo, uma reportagem ruim sobre aviação é fruto de uma cadeia de eventos. Vem comigo que vou listar esses eventos.

Para começar, não somos muito jornalistas que gostam de aviação. Jornalistas que gostam e entendem de aviação são ainda mais raros. Passei quatro anos e meio na universidade. Nesse período, se eu tiver conhecido cinco estudantes que eu sabia que gostavam de aviação, foi muito (contando comigo). E na época de faculdade, mesmo eu era só entusiasta de aviação. Achava aviões legais, gostava do Boeing 767 e só. Não sabia a diferença entre um Boeing 777-200 e um 777-300. Pra mim, motor era turbina. Vida que segue!

Me formei e comecei a trabalhar no jornalismo. Em uma semana, eu escrevia sobre produção de queijo canastra. Na semana seguinte, sobre estatística no futebol. Depois, falava sobre produção de energia elétrica. E terminava o mês falando de mobilidade urbana em Medellín. Eu era o que a gente chama no jornalismo de generalista. Falava de tudo, mas não me aprofundava em nada. E a maioria absoluta dos jornalistas são generalistas.

Elo 1 da corrente: existem poucos especialistas

Portanto, este é o primeiro problema da cobertura jornalística de aviação: existem poucos especialistas no mercado. Você acha mesmo que o cara que está todo o dia cobrindo buraco de rua no Capão Redondo ou vazamento de esgoto no Cangaíba, vai entender sobre o 3º compressor de alta do motor CFM-56 do Airbus A320-214? Eu trabalhei três anos em companhia que só usava a família A320. Eu fui tripulante de A320 e não entendo nada do motor dele! Como você acha que o repórter generalista que está falando do tiroteio do Morro do Deus Me Livre vai entender por que o avião XPTO caiu?

“Ai, Lucas, mas o papel do jornalista é apurar”. Pois é, vamos agora para o segundo elo da corrente.

Elo 2 da corrente: Tempo e ansiedade

Presta atenção em um ponto. Sempre que acontece um acidente aéreo, ou um incidente, ou mesmo uma arremetida, meio Twitter corre atrás do Lito para entender o que aconteceu. Está todo o mundo procurando resposta na hora. Isso porque vivemos em uma sociedade ansiosa e que quer tudo para ontem. E da mesma forma que as pessoas querem que o Lito responda na hora, elas querem que o G1, o UOL, o Estado de Minas, o Zero Hora, a TV Verdes Mares falem na hora por que o avião caiu.

Aí que a gente cai no mesmo problema do sensacionalismo. É aí que erro e violação se misturam. Ainda mais hoje, com a internet possibilitando que a gente edite textos, todos os portais e sites querem ser o primeiro a dar notícia. Por quê? Porque notícia gera clique e clique gera publicidade. Publicidade gera dinheiro. Na atual crise do jornalismo (crise que dura uns 20 anos, pelo menos), o clique conta mais que a exatidão da notícia. E conta mais porque, sem clique, o jornal fecha.

Infelizmente, esse é um problema que todos nós temos. Eu tenho, você tem. A gente quer informação para agora. E nessa pressa da informação, a gente consome muita notícia errada. O certo é o site apurar tudo e publicar quando tem a informação correta. Mas isso consome tempo, muito tempo. No tempo que o site A está apurando, o site B já mandou um monte de “notícia”. Todo o mundo clicou 800 vezes no site B. Os anunciantes vão querer fazer propaganda no site B. O site A entra em crise e fecha as portas. Dessa forma, o jornalista não tem tempo de apurar a matéria. E sem tempo, a chance de errar é muito grande.

Elo 3: dinheiro

Esse é o fator determinante para as notícias ruins sobre aviação. É o principal motivo para site A lançar a matéria sensacionalista do avião que arremeteu, a “turbina” explodiu e os passageiros não se feriram. É o motivo principal para site B publicar uma matéria falando de um suposto Airbus A320 da Gol. “Publica, depois a gente apura, se tiver errado, a gente conserta o site”. Dinheiro.

Como falei ali em cima, há décadas o jornalismo está em crise. Com notícias saindo em sites, a venda de jornal de papel despencou. Assim, jornais perderam suas duas principais fontes de renda. De um lado, a gente não paga mais… 1,50, 2 reais? Nem eu sei quanto custa uma Folha de S. Paulo. De outro, já que a gente não tá mais comprando jornal, não vale a pena para o anunciante pagar 50 mil reais e pôr uma propaganda na primeira página de economia do jornal. Quem ainda paga publicidade, paga menos, afinal, o impacto da propaganda será muito menor.

E mesmo na internet, está cada vez mais difícil para jornais ganharem dinheiro. Ninguém quer pagar para ler uma notícia. Sites que derrubam paywall se multiplicam. Aplicativos de adblock também. Sem dinheiro entrando, os jornais não conseguem pagar muitos jornalistas, acabam demitindo e a qualidade da informação cai.

Elo 4 da corrente: redações enxutas

Quando trabalhei no Galeão, a gente sofria de uma falta crônica de funcionários. Era relativamente comum um avião encostar no finger enquanto os funcionários estavam fazendo o embarque de outros três voos. Não tinha ninguém para abrir a porta do avião e os comissários subiam irritados, porque ninguém foi receber o voo. Por quê? Porque faltava gente. É a mesma coisa que acontece no jornalismo hoje.

As redações estão cada vez mais enxutas ao mesmo tempo que a demanda por informações é cada vez maior. São poucos jornalistas com cada vez mais trabalho para fazer e menos tempo. De novo, todo o mundo quer informação para ontem. Como você quer que uma notícia seja bem apurada se falta tempo, falta pessoal, sobra trabalho e concorrentes divulgando qualquer coisa para ganharem cliques? Como o jornalismo pode dar certo assim?

Ah, e uma vez, uma amiga minha aqui do Aviões e Músicas me perguntou por que redações de jornal não têm um especialista em aviação. A resposta é simples: aviação é só um ramo de conhecimento. Em uma edição, um jornal pode falar sobre economia, segurança pública, relações internacionais, estrelas de nêutrons, bolos de chocolate, uma nova espécie de borboleta, carros e ferrovias do Mato Grosso do Sul. Se as redações tivessem um especialista para cada área, seriam centenas ou milhares de pessoas em jornais, revistas e sites.

O JORNALISMO E CONSTRUÍDO PARA DAR ERRADO!

E quem perde com isso? Você, que tem medo de voar, então prefere pegar um ônibus de 16 horas se arriscando em estradas perigosas. Eu, que trabalhava transportando menos gente do que poderia, porque uma galera tinha medo de voar. Portanto, a companhia aérea arrecadava menos e meu salário era menor. A sociedade como um todo, porque, da mesma forma que há desinformação sobre aviação, há desinformação sobre vacinas, sobre aquecimento global, sobre agrotóxicos e sobre política.

E mesmo os jornalistas que querem informar direito, e são a maioria, não conseguem. Porque o sistema é construído para a desinformação.

Qual é a solução?

Então, a solução até existe, mas ela é quase surreal no hard news. Voltando ao começo do texto, eu trabalhei na Revista Ciência Hoje. Em maio, a gente estava escrevendo a revista que iria sair em julho. Portanto, era outro ritmo de escrita. A gente recebia um estudo científico e lia. Mandava as perguntas para os cientistas e, depois da resposta, a gente começava a escrever a matéria. Antes de a revista ser publicada, a gente ainda mandava a matéria ou para o próprio cientista ou para outro especialista na área. Isso era possível de fazer em uma revista que levava um mês para ser escrita. Ainda mais em uma que era praticamente única no ramo aqui no Brasil. Com o grau de profundidade da Ciência Hoje, acho que só tinha a Pesquisa Fapesp e a Scientific American (esta última ainda traduzia muita matéria do inglês).

Até nossa concorrência era menor, o que nos deixava trabalhar com maior tranquilidade.

Uma vez que é quase impossível o hard news seguir o modelo da Revista Ciência Hoje, a solução mais viável que eu vejo é a educação. Ensinar, explicar, desmistificar a aviação. Mostrar por que a turbulência não derruba avião. Explicar como acontece uma arremetida. Até falar que a turbina é só uma parte do motor do avião. Destruindo os segredos da aviação para o público e para a imprensa, a gente faz nosso trabalho de formiguinha para combater a desinformação e acabar com o medo de voar.

Até porque, como eu sempre digo, eu, Lucas, sou um cara muito medroso. E, depois de entender como funciona a aviação, passei a voar tranquilo. Se voar fosse perigoso, o medroso aqui ficaria quietinho no chão.

Quer perder o medo de voar também? Então se liga nessa dica!

Apesar de amar aviação a vida inteira, eu morria de medo de voar. Lá em 2009, eu até rezava no avião! O Lito foi um grande responsável por eu perder esse medo (foto: acervo pessoal)

Nos dias 31 de maio, 1º e 2 e junho, nós vamos fazer o Intensivão Medo de Voar! Em cada aulão, vamos abordar um tema que assusta muita gente quando vai voar de avião. Por exemplo, no dia 31, o aulão vai ser sobre pousos e decolagens. Em seguida, no dia 1º de junho, a gente vai falar sobre os ruídos dos aviões. Então, no dia 2 de junho, a gente vai abordar a tão temida turbulência!

Clique aqui e se inscreva no intensivão! Se existisse o Curso Medo de Voar lá em 2009, quando tirei aquela foto ali, teria perdido o medo de voar bem mais rápido.

Enfim, quer perder o medo de voar e saber das novidades da aviação? Então nos siga no TwitterInstagramFacebook e TikTok.

+ do Blog Aviões e Músicas
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