Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on whatsapp
Share on email

O que a aviação pode nos ensinar?

nos ensinar
Coloquei tantas vezes o PR-OCT no blog e nos vídeos, vamos colocar uma última vez (foto: Gabriel Melo)

Comecei o curso de comissário de voo em agosto de 2015. Em julho de 2016, comecei a trabalhar em uma companhia aérea. Em abril de 2018, ganhei as minhas asas e, por fim, em maio de 2019, elas foram cortadas. Ainda voltei a trabalhar em aeroporto, saí novamente, entrei para o Aviões e Músicas e agora escrevo meu último texto aqui. Fica uma reflexão sobre o que a aviação pode nos ensinar não só na área, mas também na vida.

Me lembro de como eu era antes de entrar na aviação. Por exemplo, quando eu tinha um problema no banco, eu realmente ficava irritado. Confesso, sem orgulho, que já briguei no telefone com atendente do banco. Sabia que ele não tinha culpa do problema do banco, mas a frustração era tamanha que precisava de uma válvula de escape. E era o coitado do outro lado do telefone. De novo, não me orgulho disso. Aí entrei em aeroporto em 2016. E eu era a válvula de escape de quem perdeu o voo. Fosse porque o avião estava em manutenção, porque o céu despencava lá fora ou simplesmente porque o cara simplesmente chegou atrasado. Eu era o alvo. E aprendi uma lição importante: empatia.

Empatia encurtando distâncias

Aviação é um negócio fascinante. Entrei na aviação porque sou apaixonado por aviões. Me apaixonei pela aviação porque era a oportunidade de resolver problemas de outras pessoas. Eu sempre falo, esse mundo de m… que a gente vive é desnecessariamente complicado. Burocracias, sistemas, formulários, relatórios. Pra quê complicar um negócio que deveria ser simples? A aviação PRECISA ser complicada às vezes, mas há outras ocasiões que a solução está desnecessariamente distante. E, trabalhando em aeroporto, descobri que eu AMO encurtar distâncias. Não só do cara que queria voar do Rio pra Fortaleza, mas também de quem estava com um problema que parecia simples, mas era complicado. Empatia.

Empatia não só pelos clientes, mas também por quem estava prestando um serviço para mim. No banco, no hospital, no supermercado ou até mesmo no aeroporto. Problemas continuaram vindo. Os bancos, ah, os bancos, essas instituições do inferno, continuaram trazendo problemas. Especialmente com cartões clonados. Então, eu estava lá, irritado, a ponto de explodir, a mão e a voz tremendo. Ainda mais depois de ficar 20 minutos falando com máquinas estúpidas que não resolviam NADA, eu ia falar com um atendente. No auge da raiva. No entanto, eu falava tranquilamente. A pessoa tem culpa do banco ser uma… beleza? Não tem. Além disso, a pessoa irritada ia ter boa vontade pra me ajudar? Não ia. Pra que eu ia gritar com ela? Se eu fizesse a diferença sendo educado, talvez ela tivesse mais disposição de fazer a diferença no meu dia de volta. Empatia.

E, mesmo que você não precise de algo da pessoa, empatia, educação são essenciais, já que ali na sua frente, tem outra pessoa.

O que deu errado e não quem errou

Quando um avião cai, o público em geral quer saber quem provocou a queda. Foi o piloto que errou? Foi a torre de controle? O mecânico? Uma coisa que aprendi com o próprio Lito, isso antes de sonhar vir pro Aviões e Músicas, é que a investigação de um acidente aéreo não procura culpados. Ela procura entender o que houve de errado e ensinar os outros a não repetirem os erros. Isso é disparado uma coisa que tento muito aplicar à minha vida.

Porque, pensa comigo. Imagina que você tem uma criança em casa. Você sai pra fazer alguma coisa e a criança, sozinha, fica com fome. Aí ela vai tentar fazer o Toddy/Nescau dela. Mas, pô, é uma criança, ela não tem a nossa habilidade pra mexer com leite, achocolatado e sei lá mais o que, então faz a maior bagunça na cozinha. Aliás, tem muito adulto que faz bagunça na cozinha. Sabendo que você vai brigar com a criança, ela vai assumir a culpa de ter derramado leite e achocolatado na pia, no chão e na mesa? Não vai, porque a cultura punitiva causa isso. Faz as pessoas terem medo de assumir o erro.

Seja numa relação de pais e filhos, de irmãos, namorados, casados… vamos perder menos tempo apontando culpados e concentrar nossas forças em entender o que deu de errado e o que podemos fazer de melhor. Vamos seguir o que o Lito nos ensina e o que ele pratica, nos preocupando mais com o que dá errado e menos com quem errou. Eu te garanto, isso vai melhorar demais sua relação com todos ao seu redor. De certa forma, a gente cai no que falei ali em cima, na empatia.

Arremetida e alternado

Outra questão importante que a aviação nos ensina é a resiliência. Pra trabalhar em um aeroporto, você precisa ser resiliente. Aguentar as porradas da vida e continuar seguindo o seu caminho, fazendo o certo sempre. Claro, tentando mudar o que pode para melhorar a situação, mas aguentando as porradas. No entanto, vale destacar que a gente aprende a insistir, mas até um certo ponto.

Por exemplo, imagine um avião tentando pousar em um aeroporto num dia de tempo ruim. O piloto vem para a primeira aproximação, mas o vento de través impede o pouso. Ele arremete, os passageiros entram em pânico, a imprensa adora, vocês clicam na notícia pra ler e pra se indignar com o sensacionalismo. O piloto tenta novamente, outro vento de través, outra arremetida. E tenta de novo… Nada de pousar. O piloto vai continuar tentando pousar, mesmo que isso esteja queimando o combustível? Não. Se a situação está complicada e ele percebe que está queimando combustível a toa, ele vai procurar um alternado, outro caminho, outra rota.

É a mesma coisa com a vida. Seja resiliente, mas tenha consciência situacional. Você tá vendo que o vento de través está atrapalhando seu pouso, então procure um alternado. Não há problema nenhum nisso. Da mesma forma que o comandante é o responsável máximo pelo avião, você é o responsável máximo pela sua vida.

Por fim, primeiros socorros

Outra coisa importante que a aviação me ensinou é primeiros socorros. Mas aí tem mais a ver com o curso de comissário de voo mesmo. A gente aprende como lidar com ataques epilépticos, ataques cardíacos, crises de hipoglicemia, bem como partos. Aprende sobrevivência no gelo, na selva, no deserto, em todos os lugares. Além disso, a gente aprende até a apagar incêndio.

Não, não estou querendo me achar o médico, o bombeiro nem o Bear Grylls. Mas a gente aprende um básico de como se virar melhor em diversas situações. Seja em uma emergência, seja na vida normal.

Enfim, é isso que a aviação pode nos ensinar. Como escreveu meu ídolo, Douglas Adams: Até mais e obrigado pelos peixes.

Tripulação, portas em manual.

Enfim, quer saber mais curiosidades da aviação? Então nos siga no TwitterInstagramFacebook e Tiktok.

+ do Blog Aviões e Músicas
logo aem site rodape 2

Um portal feito para leigos, entusiastas, curiosos, geeks, amantes de aviões, aeroportos e viagens.