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Aviação

A história de um Electra pouco conhecido: O PT-DZK

Estou indo viajar amanhã, então resolvi fazer um post bem bacana pra cobrir a ausência.
É um post trabalhado com muita pesquisa mas que deu muito prazer de fazer.

Pouca gente sabe, mas além dos 15 Electras que operaram no Brasil nas cores da Varig, existiu mais um Lockheed Electra por aqui: O PT-DZK.

Ele era um Electra particular, com configuração executiva para 28 pessoas, e seu proprietário era Francisco Pignatari. Este Electra chegou ao Brasil em 26 de Novembro de 1971 e ficou baseado em Congonhas até ser vendido 4 anos depois.

Eu fui fazer uma pesquisa sobre este Electra e pasmem, encontrei apenas um registro fotográfico. Por algum motivo não há muitas informações a respeito dele. Quando eu trabalhei com os Electras em Congonhas, os mecânicos mais antigos me contavam histórias sobre este PT-DZK, que era lindo por dentro e que a Varig fazia manutenção “on-call” nele.

Sobre o proprietário, achei este texto escrito por Luis Nassif:

No universo dos biografáveis brasileiros, dificilmente se encontrará personagem mais instigante que Baby Pignatari. Hoje em dia, pouco se fala nele. Nos anos 50 e 60 era personagem mundial, um playboy que cortejava todas as atrizes de Hollywood, um empreendedor fantástico, uma lenda em vida, um mistério depois de morto.
Lá pelos idos de 1960, o romancista Harold Robbins escreveu uma semificção sobre a vida do bilionário norte-americano Howard Hughes. Pois Baby era o nosso Hughes. Era Pignatari e era Matarazzo, filho de uma prima do conde Francisco Matarazzo. Empreendedor nato, tinha fábricas de purpurina, minas de cobre no sul do país e uma fábrica de aviões de aeroclube, os Paulistinhas, ainda hoje bastante conhecidos. Quando Assis Chateaubriand lançou a campanha nacional para a criação de aeroclubes, impulsionou extraordinariamente a produção dos Paulistinhas. Em troca, Baby o presenteou com um Rolls Royce.

Nasceu em 1916, morreu em 1977. Pelo tanto que fez, parecia ter vivido muito mais que seus 60 anos. Em fins dos anos 40 construiu uma mansão, onde hoje em dia é o parque Burle Marx, adquirido pela Bunge & Born. Era uma chácara em plena São Paulo, de 138 mil metros quadrados, com os jardins desenhados por Burle Marx, a casa projetada por Oscar Niemeyer.

Quando eu era moleque, nos anos 60, Baby já era uma lenda viva. Namorara as mais belas atrizes do cinema norte-americana de Zsa Zsa Gabor e Linda Christian. No mundo, fazia parte do primeiro time dos playboys internacionais, ao lado de Porfírio Rubirosa, Ali Khan, Aristóteles Onassis e Hughes. No Brasil, foi um dos membros mais ilustres do “Clube dos Cafajestes”, que juntava a fina flor dos conquistadores brasileiros nos anos 50, gente como Jorginho Guinle, Mariozinho de Oliveira, Sérgio Porto, Heleno de Freitas. Além da lábia e do dinheiro, era um deus peninsular, um galã à altura de Marcelo Mastroiani e um esportista nato, que chegou a disputar as corridas de Le Mans e Silverstone com uma BMW 2800 CS. Seu avião particular era um Electra, o mesmo avião que operava a ponte Rio-São Paulo.

Já que eu estava pesquisando, porque não reconstruir a história do PT-DZK?
Então, seguem os registros que consegui.

O PT-DZK nasceu na verdade como N129US, pois ao sair da fábrica da Lockheed foi adquirido pela Northwest, isto foi em 15 de Dezembro de 1959.

Em 20 de Janeiro de 1970 foi vendido para Skyways Inc e rebatizado como N777DP, deste eu não achei registro fotográfico.

Em 04 de Outubro de 1971, foi adquirido pelo Francisco Pignatari e convertido em avião executivo, rebatizado como PT-DZK. Eis o único registro que encontrei, foto de Vito Cedrini

Em 1975, foi vendido para Omni Aircraft Sales Inc e novo batismo, desta vez como N8LG

Em Dezembro de 1976 foi vendido para J. Hilmer e alugado para a Cathedral of Tomorrow Inc, onde visitou a Austrália em missão evangélica. No dia 05 de Maio de 1978 foi visto em Miami, arrendado para COTE Inc. Em 02 de Setembro de 1981 foi visto em Fort Lauderdale com o título “The Rex Humbard Foundation” e registrado para a National Leasing Corporation de Pittsburgh.

Em Maio de 1985 foi registrado para JBQ Aviation Corp de Miami, e operado pela TPI International Airways e mm 18 de Julho de 1985 foi rebatizado como N360Q e modificado para carregar passageiros e carga.

Em 06 de Junho de 1989 foi visto em Manchester, operando para a Air Bridge Carriers e nomeado como “Phyllis B”, mas ainda mantendo a mesma matrícula. Em Novembro de 1989, foi rebatizado como N360WS. Vejam na foto que é possível ver uma grande porta de carga na parte traseira onde antes era uma porta de passageiros.

Aqui nesta foto dá pra ler no nariz o nome Phyllis B

Em 1990, foi arrendado para World Airline Gambia e parece que por falta de pagamento foi retomado 5 meses depois e foi para Brunswick, Georgia.

Em Abril de 1992, foi registrado para a JBQ Aviation Corporation, mantendo a mesma pintura da Air Bridges. Um mês depois foi danificado num acidente em Opa Locka quando bateu em um Convair 580, de matrícula N73107.

Em 28 de Dezembro de 1992 manteve a mesma pintura da Air Bridge mas mudou a matrícula novamente para N360Q

Em Agosto de 1993 foi para Edinburgh e em setembro para Helsinki na Finlândia, com o título de Channel Express. Quatro meses depois mudou o título na fuselagem para Air Atlantique.

Em 06 de Setembro de 1994, foi para East Midlands Airport em Reykjavik operando para Hunting Cargo (subsidiária da DHL).

Em 29 de Março de 1996 foi visto novamente em Opa Locka com a pintura toda branca da Charrak Air, pra onde seguiu para Cairns na Austrália em Abril, fez escalas em Roswell, San Diego, Maui e Majuro. Por quase um ano fez a rota Cairns – Honiara, de onde retornava trazendo atum do mercado japonês.

Em 16 de Janeiro de 1997 retornou para Roswell ainda como N360Q para ser repintado e entregue para Channel Express da Inglaterra, para onde seguiu em fevereiro de 1997.

Em 25 de Julho de 1998, fez o ultimo voo de Birminghan para Bournemouth, onde foi estacionado e preservado.

Em 10 de março de 1999, foi comprado pela Renown Aviation e trasladado para Shannon para operar novamente para a Channel Express. Em dezembro do mesmo ano, foi devolvido para Renown Aviation e estacionado novamente.

Em 2003 foi utilizado no filme “Basic” (Violação de Conduta), de John Travolta (foto abaixo)

Em 23 de Janeiro de 2003 foi exportado para o Canadá, para a Air Spray (a mesma que comprou o PP-VLX da Varig).

Em 18 de Setembro de 2003 foi rebatizado como C-GYVI e iniciou a preparação para ser convertido em avião bombeiro, o que aconteceu em outubro (foto abaixo durante a conversão com instalação de tanque de retardante na barriga). Observem que ele ainda está pintado com as cores usadas no filme do John Travolta.

Em 28 de dezembro de 2004 seguiu para Aero Union em Chico, California para instalação do tanque. Em Março de 2005 entrou em serviço como Tanker 83.

Em 27 setembro de 2007 foi retirado de serviço… :(.. encontrei estas fotos dele sem motor…

E assim termina a história de vida deste modelo que voou no Brasil como um avião executivo e que tão pouco registro se tem a respeito. Deve estar abandonado e canibalizado, se já não foi destruído e vendido como sucata, depois de tantos serviços prestados.

Todas as fotos possuem Copyright dos seus autores.

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  • http://twitter.com/gustaguiar Gustavo

    Tenho uma Flap especial sobre a despedida do Electra da Varig e tem uma foto que você não postou. Acho que tá em preto e branco. Nela, o DZK tem escrito Brasil e tem uma bandeira do Brasil, como na pintura da Varig. Vou fotografar aqui e te mando. Foto raríssima.

    Tenho curiosidade de saber como era o interior dele.

  • rui

    Super trabalho de pesquisa, o interior desse avião ficará na nossa imaginação. Acho que tb tenho uma Flap falando dele. Outra coisa pode corrigir meu post? O início do texto ficou ao lado do video e não lembro como faz pro video aparecer na chamada do post rsrs

    abs

    • http://www.avioesemusicas.com Lito

      Não esquenta, o texto do lado do vídeo é um bug do tema após o update do WordPress (vou resolver isso mais pra frente) e na chamada do post só aparecem fotos mesmo. Abraço.

  • Hiroshi

    Boa,Lito parabens a pesquisa mto bom!

    tens noticias dos 47's 400 e 300 da Amada Pioneira?

    se estão voando até hje e da epoca que saiu pra onde foram?

    abraço!

    • Lvcivs

      Cara, que eu saiba o VPG e o VPH foram para a Air New Zealand e nela voam até hoje (são os 747-441 da frota deles).

      Os 300 acho que tavam na Iberia mas não tenho mais certeza!

    • Lvcivs
  • Marcos Nunes

    Muito bom o trabalho. Você sabe me dizer aonde tem Electra voando?

  • Lvcivs

    Tem mais fotos do DZK numa Flap antiga, vou ver se acho em casa!

  • Máximo

    O Lito, o cara é neto do conde Matarazzo, maior empresario que existiu no nosso pais, foi capa da Veja, parente do Eduardo Suplicy, a mãe do Eduardo Suplicy tambem era neta do conde.

    Voltando ao avião, que historia!!!

    Mais avião rodado eim? Passou por varias empresa esse deve ser um recordista?

    Pior foi a pegadinha que vc fez ai comigo Lito, na foto do filme tava eu lá apertando o play na foto p rola o filminho, ainda olhei a bolinha do video lá no 1:30, pensei, carregou bem já, hauahauhu pior!

  • http://flightlife.wordpress.com Junior

    Nossa, então era esse o Electra utilizado em Violação de Conduta!

    Q história tem essa aeronave!!! Sensacional!

  • Renato

    Que carreira teve esse Electra.

    Parabéns pela pesquisa!

  • http://www.asasdabahia.net Alexandre

    Meu caro Lito,

    Existe uma FLAP, não recordo o número qeu conta a história inteira do avião (PT-DZK), com fotos internas e a maneira de como esse avião saiu ilegalmente do Brasil em um domingo de Carnaval, cruzando todo território em um vôo não autorizado.

  • Zé Maria

    Lito, seguinte:

    Conheci hoje, por sorte do destino, seu site/blog, estava eu lá no "Blig do Gomes" e alguém fez uma citação e eu, por mera cu riosidade vim parar aqui e simplesmente fiquei hipnotizado, principalmente pelo seu vasto conhecimento desse, melhor dessa maquina maravilhosa chamada Lockheed L 188 Electra, sou simplesmente obcecado pelo mesmo!

    E eu que pensava que por aqui no Brasil talvez só o Gianfranco Beting, hoje na Azul e no Jetsite, além da editora Panda Books, fosse tão fissurado nela como eu sou!

    Que nada, você simplesmente É O CARA!!!

    Espero inclusive que o Gianfranco tenha chance de conhecer seu trabalho, vai ver já conhece. . .

    Quanto ao Electra do Pignatari, retornou uma vez mais ao Brasil, já como N8LG, trazendo o Pastor Rex Humbard, acho que na década de 80, ficando estacionado no pátio da VASP ao lado da Av. Washington Luiz, quem passava pela avenida conseguia ver, a foto inclusive já foi publicada em algum lugar. . .

    Fico por aqui, ainda "fuçando" nas suas histórias pela Africa, acho até que vou passar a noite em claro!!

    Abraços e parabéns, você acaba de conseguir mais um seguidor fanático pelos sempre insuperáveis ElectraII.

    • http://www.avioesemusicas.com Lito

      Zé Maria obrigado pelo comentário. Estou escrevendo um livro também e já tive contato com o Gianfranco embora não o conheça pessoalmente. Abraços.

  • Zé Maria

    Lito, boa tarde.

    Eu de novo, mas sabe como é que é, né!

    Fissurado em Electra sempre tem mais uma perguntinha ou curiosidade!

    Então se você me permite, vamos a elas:

    1) Em 1980 o VLY pousou de barriga no GIG depois de se esgotarem as tentativas de abaixamento do trem de pouso, inclusive com a utilização da machadinha do cockpit para cortar o carpete na cabine de pax e checar as linhas hidráulicas.

    Mesmo não sendo da sua época, você ou algum colega tem idéia do que realmente aconteceu?

    2) O suprimento de peças, componentes, instrumentos em geral,etc para os Electra na VARIG ainda era responsabilidade do fabricante ou vocês tinham que se virar no mercado paralelo ou mesmo nas próprias oficinas?

    3) Quando foram para a África terminar seus dias, foi agregado também no pacote de venda algum tipo de material de reposição (lembro que você comentou da troca de hélice em solo africano) ou foi tudo "no laço" mesmo?

    Agora a curiosidade, talvez você já conheça a história:

    Em 1986 a VARIG estava na captura de mais Electras para reforçar o quadro da Ponte mas encontrava dificuldade em localizar aeronaves em bom estado e compatíveis com a frota existente.

    Ocorre que a TAME do Equador possuia 4 Electras que precisavam realizar manutenção pesada urgentemente sob risco de serem impedidos de voar, só que o dindin dos equatorianos não dava nem para o café!

    Foi então proposto e aceito o seguinte: a VARIG zerou os 4 aviões sem custo algum para a TAME em POA e escolheu os 2 melhores para agregar à frota, devolvendo o outro par aos equatorianos.

    Essas duas máquinas foram o VNJ e o VNK, os últimos Electra a compor a frota da Pioneira!

    É isso, vou ficando por aqui, desculpe se alongou um pouco…

    Abraço e até…

    Estou no aguardo do livro e quem sabe de mais fotos do fundo do baú…

  • http://www.avioesemusicas.com Lito

    @Zé Maria,

    1- Realmente eu não tenho detalhes sobre este pouso em GIG, entrei na RG em 86, vou ver se consigo contato com os mais antigos pra saber detalhes.

    2- Algumas peças (que não fossem componentes) eram fabricadas na própria RG e aprovadas pela engenharia. Todos os outros componentes eram comprados dos EUA, que ainda hoje fornecem peças.

    3-Os compradores levaram várias peças sobressalentes, na verdade eles compraram todo o estoque da Varig. Nas duas travessias que fiz, o avião estava repleto de peças de reposição.

    A história do VNK e VNJ já é do meu tempo, inclusive eu cheguei a trabalhar no VNJ ainda antes dele iniciar os voos no Brasil (montagem do rack de equipamentos eletrônicos).

    Grande abraço, você realmente é fissurado no Electra! :)

    • Zé Maria

      Lito, obrigado pelas respostas!

      Mas como você mesmo percebeu, sou fissurado no Electra e sempre sobra uma ou outra perguntinha. . .

      Aliás, acho que esse deve ser o único vício que não é prejudicial à saude. . .

      Então vamos a elas, sempre contando com a sua paciência, ok!

      1) O africano (que você chamava de Greco) e que tinha nascido para o negócio como você mesmo comentou, simplesmente leu o manual, sentou na esquerda, foi dando manete no bicho e tome decolagem e pouso na base do vamo que vamo. . .? O canadense só ficava na paquera e agia se precisasse?

      2) Se tinham comprado todo o estoque de peças, não foi nem uma GPUzinha para ajudar e evitar ficar com o "4" virando direto para garantir o retorno para a base?

      3) Os reparos nos flaps por causa dos pedriscos era tipo "rebite pop" ou tinha um mínimo de padrão aeronáutico, se é que posso chamar assim?

      4) Efetivamente quantos dos Electra da VARIG sobreviveram até os dias de hoje, além do VJM que está no MUSAL e do outro que virou bombeiro no Canadá? Na África sobrou algum, mesmo que só a carcaça ou foram todos perdidos em acidentes e/ou sucateados?

      5) Por falar em VJM, porque a parte inferior da fuselagem, após o bordo de fuga, era pintada de branco e não ficava no metal exposto como os demais? Acho que também um dos últimos, VNJ ou VNK, também era todo pintado de branco na parte inferior, desde o radome até o cone de cauda, seria algum problema do chapeamento que não podia ficar apenas no metal polido?

      6) O orifício na ponta dos spinners das hélices era para por exemplo refrigerar os governadores ou estou "viajando na maionese"?

      7) Alguma notícia sobre o F/E Tarcísio, de quem muita gente já perguntou o paradeiro para você?

      Mais uma vez obrigado e fico no aguardo. . .

      • http://www.avioesemusicas.com Lito

        1) Exato. Leu o manual com as referências de velocidade/pitch/etc, sentou na esquerda e foi.
        2) Eles tinham GPU lá, mas só na capital. Para levar para as bases remotas não haveria pessoal p/ fazer manutenção e aí já era.
        3) Rebite pop sem padrão, as vezes só fita metálica, que se trocava depois do voo.
        4) Essa resposta precisa d eum pouco de pesquisa, eu não tenho essa info agora.
        5) O VJM e o VNK tinham a barriga pintada por causa da chapa não estar em condições adequadas p/ ficar no "bare metal". Em alguns lugares a proteção contra corrosão não aguentaria polimento, por isso a pintura era a solução mais adequada para manter a chapa protegida.
        6) Para refrigerar a reguladora da hélice e também para permitir a colocação da ferramenta que removia o spinner.
        7) Ainda não…. gostaria muito de vê-lo novamente.

  • Strauss

    Também tem um 747-400 que tem uma historia grande!! mais de 10 empresas, qd se aposentou, ele virou um hotel num aeroporto da KOREA, claro, a suite mais cara é a da cabine, eu vi uma reportagem sobre isso…

  • AlexandreACW

    existe uma edição da FLAP que tem uma materia detalhada sobre esse aviao inclusive como ele foi embora do pais de maneira sinistra